domingo, 10 de maio de 2009

A experiência do não saber.

 Desert
I. Introdução

Certamente um bom e sugestivo título este que estamos para abordar. Sempre me atraíram bastante pensadores como Sócrates, Platão, Agostinho, Boaventura, isto é, que gostam de tratar de problemas complicados, às vezes controversos como, por exemplo, a morte, o mistério do mal, o final dos tempos, a alma etc.
Depois de ter falado sobre a morte, o mal, as virtudes e os vícios, quero, com paciência e tranquilidade, falar sobre um tema rico e ao mesmo tempo cheio de mistérios inefáveis: A oração. Para tal ânimo, vamos tentar falar de uma maneira universal e desprendida de pressupostos religiosos e culturais (sem, porém, deixar de citar a Palavra de Deus e a Tradição Judaico-Cristã).

II. Oração – Necessidade da alma

Não sei até que ponto nós podemos garantir cem por cento que a oração seja uma necessidade humana, pois, ao ver vários exemplos históricos de pessoas que não param para pensar em um ser superior ou mesmo para pensar sobre coisas extraordinárias como o viver, o morrer, o fim último do homem e que não regem as suas vidas conforme o bem; mas, com toda certeza, temos que admitir que orar (rezar, louvar, suplicar, jubilar, interceder etc.) sempre fez parte da vida do homem de todos os tempos e nações. Antes mesmo de existir um “povo de Deus[1]”, o homem já se relacionava com um ser superior a ele. É um fato o homem precisar de um “outro” que seja superior e mais forte do que ele. Em toda a história, sempre existiram deuses a quem o homem recorria em sua aflição e angústia.
Para falar de alguns casos, podemos citar os deuses do Olímpio, a religião órfica da Grécia antiga, as divindades indianas, a superioridade do faraó como senhor do Egito. Mas grande relevância tem o “Deus Desconhecido”. Quase todos os povos nutriam devoção a um deus desconhecido e não sinto constrangimento nenhum em afirmar que esse Deus desconhecido seja o verdadeiro Deus.
O coração das pessoas no mundo precisa da dimensão mística para sobreviver em um mundo de desilusões e de imperfeições. E por falar em imperfeições, não acha incrível o fato de conhecermos na teoria o que significa a palavra perfeição e não termos na prática nada que se iguale a esse conceito? Muitos filósofos, sobretudo Platão, diziam que o pensamento da perfeição é prova da existência do Ser Perfeito, ser esse que vive no mundo real, para onde somos destinados a ir. Se existe, portanto esse conceito, certamente existirá a matéria que lhe justifica a existência. Considerando superficialmente essas palavras, podemos até crer que Platão falasse em uma esfera religiosa. Fascinante o pensamento filosófico, pois explica um mistério inexplicável de nossa religiosidade usando a razão.

III. Oração: meio para a deificação

Oratio (do latim), termo conhecido na prática, mas dificilmente alguém o explica na teoria. Oração, como já está contido na palavra, implica perfeita ação ou ação divinizada, divinizadora. Para explicarmos melhor, basta que consideremos o objetivo da oração: em todas as confissões e filosofias, encontramos um fator comum, trata-se do objetivar a divinização. Muitas religiões pregam que nós devemos fazer um caminho ascético, ou seja, um caminho de perfeição rumo a uma meta elevada e superior. Há quem diga que este caminho é de penitência, há quem diga que é de caridade e justiça, mas vai ser Jesus a levar esse termo ao seu significado mais profundo quando fala no “Pai nosso”: “...Santificado seja o Vosso Nome, venha a nós o Vosso Reino, seja feita a Vossa Vontade na terra como no céu...”. Mais do que sermos agentes dessa santificação, devemos nos deixar santificar pelo Pai, devemos deixar vir o Reino do Pai até nós. Entendamos Reino do Pai como santificação nossa, nossa adesão ao Ser Superior.
Jesus fala em outro trecho das Sagradas Escrituras sobre a verdadeira oração que é aquela feita no segredo do nosso quarto, ou seja, no segredo do nosso coração
[2].
Para comparar a oração a algo, basta pensar no Sol. Quando estamos expostos a ele, por mais que não tenhamos consciência disso, somos queimados e nos bronzeamos. Deus é o Sol da Justiça diante do qual ficamos quando oramos. Nós nos bronzeamos, ou melhor, nos tornamos deuses, e isso sem que o saibamos. Em um salmo, está escrito: “Ó juízes vós sois deuses, sois filhos do Deus altíssimo”. Somos filhos de Deus, isso nos é prático afirmar hoje, mas não o era há um tempo. Trataremos disso mais tarde.

IV. A oração de louvor

Louvar é mais que agradecer, implica um reconhecimento venerável para com o louvado. Na tradição judaico-cristã, esse termo assume uma importância fundamental: Deus é digno de todo louvor, a Ele elevamos as nossas mãos, símbolo da exaltação e júbilo de um povo que ama de verdade o seu Senhor. Louvar é transbordar-se em amor a ponto de cantar, soltar a voz em frases viscerais de paixão.
Outra conotação importante do louvor é a celebração. Aqui tocamos no que concerne ao rito, à festa. Celebrar é uma manifestação de alegria por parte de que ama e acredita em um Deus. O rei Davi dançou diante da Arca da Aliança. Tocou instrumentos e cantou salmos e cânticos espirituais
[3]. Jesus, em sua oração ao Pai, louvou-o pela sabedoria dos pequeninos[4].

V. Oração – Experiência do silêncio

A mais perfeita oração não é feita no barulho. O silêncio na oração é um sinal de admiração diante de um mistério. O mistério só é mistério se faltar conhecimento pleno dele por parte do homem. O orante diante do Deus desconhecido permanece em silêncio, um silêncio de paz e não de perplexidade. Deus, para ser Deus, não pode ser conceitualizado ou definido pelo homem. A idéia de Deus é abstrata na mente do homem, mas real em sua vivência. Ser servo de Deus é ter Deus e não possuí-lo; amar de todo o coração um ser que não se conhece bem, mas cuja presença é real e tão certa quanto o ar que respiramos, mas que não conseguimos ver.
Palavras são como palhas jogadas ao fogo, se consomem rápido e desaparecem. O amor não precisa de palavras. Eu diria que palavras só conseguem delimitar o significado inefável do amor. Inefável é a vivência de quem ama. Orar, nesse ponto de vista, se torna uma explosão de amor diante do amado. Explosão de amor silencioso, mas eloqüente como nunca se viu igual.

VI. Fé – Não saber

Há um tempo li um livro que se intitulava A nuvem do não saber. Esse livro me abriu os olhos para algo que até então não entendia. Por mais que queiramos explicar a fé, ela nos foge à compreensão. Fé é pregustar as coisas que não vemos e não conhecemos em si. Quem pensa que fé é abstrato, se engana e nunca conheceu o que é ter certeza de coisas que não se apresentam diante dos olhos e de cuja concretude não podemos apalpar.
A não ciência da fé a torna especial e acessível a poucas pessoas. É preciso ser forte nas próprias convicções para se ter fé. Acreditar em Deus não extermina a nossa razão, pelo contrário, nos elevamos sobre a razão e ultrapassamos o limiares dessa mesma razão para alcançarmos uma meta que nos é superior. A sabedoria de Deus é loucura para os homens, e a sabedoria dos homens é loucura para Deus
[5]. Orar, então, se torna um ato de loucura regido pelo amor e pela fé. O silêncio se torna a atitude mais eloqüente de ama em atos e não somente me palavras. O orante vive Deus mais do que fala de Deus. Quem muito fala, demonstra insipiência na fé e nos caminhos de Deus. O verdadeiro doutor para Deus é aquele que reconhece que nada sabe e se coloca em humildade diante da Sabedoria eterna.
Para concluir nosso pensamento, quero pegar a oração de hoje da coleta da missa
[6]:


Ó Deus, Pai de bondade, que nos redimistes e adotastes como filhos e filhas, concedei aos que crêem no Cristo a liberdade verdadeira e a herança eterna. Por Nosso Senhor Jesus Cristo Vosso Filho na Unidade do Espírito Santo. Amém.


[1] Aqui fala de Israel, povo escolhido de Deus. Ver Ex 3, 6 ss.
[2] Ver Mt 6, 6 ss.
[3] Ver II Sam 6, 14 – 17
[4] Ver Lc 10, 21
[5] Ver I Cor 1, 25
[6] Coleta do 5º Domingo da Páscoa no ano litúrgico B.